Sonic Tiersen

Após duas hipóteses que não havia agarrado de ver Yann Tiersen em Portugal, foi com tremenda alegria que lá consegui os bilhetes para a sua passagem mais recente pelo nosso país. O local: Casa das Artes, Famalicão. O ambiente exterior prometia: muita gente, possivelmente casa cheia, enfim, todos ansiosos por rever os encantos do criador das bandas sonoras de Amelie ou Adeus Lenine.

Yann Tiersen

Yann Tiersen

O primeiro sinal que me fez ficar de pé atrás foram os diversos instrumentos espalhados pelo palco: muitas guitarras e uma bateria imponente nas alturas. “Estranho”, pensei eu, “vai ser um concerto mais rockeiro!”. Para abrir as hostilidades, depois de todos estarem confortavelmente instalados e à esperas das doces melodias,  Yann e a sua banda fazem o primeiro aviso, com uma canção (igual a quase todas as outras que se seguiram) num volume tão alto, para uma sala de média dimensão, que até me cairam dois chumbos dos dentes! Meu Deus, parecia o fim do mundo em versão long play. O primeiro tema deve ter durado para aí uns dez minutos, com Yann e toda a banda empenhada em tirarem o máximo de barulho possível dos seus instrumentos. Creio mesmo que cheguei a vislumbrar princípios do Apocalipse em alguns momentos, enquanto procurava os chumbos! Pensei eu até que aquela seria uma versão digna talvez de um grand finale, com os artistas a acabarem o concerto de forma apoteótica. Mas não! Era apenas o início!

As canções foram-se sucedendo, intercaladas com “Obrigados” da parte de Yann e aplausos do público (será que sabiam ao que iam? Só eu fui sem noção do que me esperava?!), mas a verdade é que muito pouco de interessante ou tocante se ouviu durante aqueles 90 minutos. Apenas dois ou três temas escaparam ao inferno decibélico, mas foi muito pouco para um artista que tanto admiro. Num determinado ponto do concerto, ainda se acendeu uma centelha de esperança quando o único elemento feminino da banda se dirigiu para a frente do palco e começou a tocar alguns acordes numa espécie de cavaquinho, sendo esses breves instantes mel para os meus ouvidos, mas a esperança durou pouco tempo, pois após alguns  segundos as potentes guitarras e imponente bateria voltaram a arrumar o cavaquinho para o canto (nem sei para que é que continuou a rapariga ali a dedilhar, não se ouvia nada!). E assim foi passando o tempo, com os ouvidos cada vez mais doridos e com Yann a mostrar uma faceta de rockeiro que não é o seu lado mais brilhante, de todo.

Em termos de conclusão, devo dizer que o concerto foi deveras decepcionante. Não que eu quisesse ouvir apenas temas antigos, com as roupagens já conhecidas de todos, mas porque acho que o rock puro e duro não é o estilo que mais favoreça Yann Tiersen ou a música que cria. Toda a distorção, ruído, estrondo desta produção tornam-no apenas um rockeiro banal, igual a tantos outros, quando a sua genialidade reside noutras zonas da música menos exploradas, zonas mais calmas, melancólicas, silenciosas e é isso que eu tanto admiro nele, não no Yann Tiersen de ontem! O que o francês produziu para este espectáculo acabou por ser quase um espécie de de banda sonora de Amélie, tocada pelos Sonic Youth. Talvez tragável num festival de Verão, quase insuportável num ambiente fechado de auditório.

Aqui vos deixo um pequeno exemplo daquela que terá sido uma das músicas menos más de todo o espectáculo. Quase todas as outras nem tiveram direito a violino! (O vídeo não é da minha autoria!)

5 responses to “Sonic Tiersen

  1. WhiteShadow

    Compreendo a tua desilusão, mas eu, por exemplo, sabia ao que ia e fiquei simplesmente fascinado! É sem dúvida um Yann Tiersen diferente, mas perfeitamente previsível na setlist que o vem acompanhando nesta tour (podes ver por exemplo este concerto de Abril em Vancouver com setlist quase igual: http://www.youtube.com/watch?v=2uzM8MhM6Aw – aí tens os vídeos sas canções todas)

    Quem vem a esperar o piano e o acordeão obviamente fica desiludido e aí culpo a organização e promoção que passam a ideia errada. Passa pela cabeça de alguém anunciar que vinha apresentar músicas do Tabarly, que são quase só feitas de piano?

    Dito isto, se estiveres de mente aberta e pronta para experiências, acredita que ontem foi um autêntico “orgasmo musical”. Rock psicadélico, ambiental, barulhento sim, mas melódico e harmónico como nunca. Roupagens rock para músicas transfiguradas. Adorei o Le Quartier, La Rade, Western, Kala. Delirei com o Sur Le Fil (a que ele toca sozinho no violino) e especialmente com Esther (a penúltima música do concerto, segunda do encore). Voltaria hoje a correr para o concerto e para mim foi uma experiência inolvidável (mas respeito a tua opinião).

  2. mistersilva74

    Pois, mas eu continuo a achar que esses terrenos que Tiersen pisou não são aqueles em que ele melhor trabalha. Digamos que alguém que nunca tivesse ouvido nada do artista, e fosse ontem ao concerto, sairia de lá com uma ideia totalmente errada. Ficaria na memória um concerto psicadélico, barulhento, mas com muito pouco de brilhante. Para mim, foi pena, prefiro claramente o Tiersen calmo, mas sim, se calhar a culpa foi minha de não ter investigado melhor antes de comprar os bilhetes.

    PS – Muito obrigado pelo comentário. Volte mais vezes!

  3. WhiteShadow

    Irei espreitar o blog, então. Mas realmente penso que a culpa não é tua (posso tratar-te por tu?). Acho que a culpa é mesmo da divulgação e da ideia errada que fazem passar. Eu fico triste pois penso que muita gente fica desiludida sem necessidade.

    Também eu tenho saudades do Yann do piano, acordeão e violino, das bandas sonoras de Amelie, Good Bye Lenin ou Tabarly. Quem me dera a mim vê-lo ao vivo tocar um Rue Des Cascades ou um Monochrome. Mas compreendo a sua ânsia em se reinventar e honestamente aprecio sobremaneira as roupagens diferentes que deu às suas músicas. E sinto-me privilegiado por ter podido sentir um pouco do seu génio de composição na noite de ontem. Se apreciares agora com mais calma vais ver que tem momentos sublimes. Mas imagino que sem contar, é um grande “baque”, que aliás se repete um pouco por todos os concertos que o Yann vai dando (basta procurares blogs de outras nacionalidades).

    O meu conselho, se gostas do Yann, é que ouças um pouco da sua discografia mais recente para apreciar a beleza nas composições, sem todo o “ruído” do alinhamento “rockeiro” que ele usa ao vivo.

    Cumprimentos “musicais”.

  4. mistersilva74

    Eu conheço bem o trabalho de Yann, apesar de não ter tido oportunidade de o ver ao vivo antes. Para mim, os trabalho “Les Retrouvailles” e o outro “L’Absente” são dos melhores albuns que alguma vez escutei. Ouço-os vezes e vezes sem conta. Até acabei por comprar um DVD ao vivo (que já demonstra alguma da sua faceta “rockeira” e o duplo CD C’etait ici. Todos eles muito bons e equilibrados! Mas não foi pelo concerto que vou deixar de gostar do artista e esperarei com muita expectativa o próximo trabalho.

    Sim, podes-me tratar por tu! E sê bem vindo ao meu blog. Tanta gente por aqui passa, mas tão pouca gente escreve! (Ainda para mais sem abreviaturas palermas!)

    Obrigado!

  5. WhiteShadow

    Tenho todo o prazer em escrever. O tempo é que por vezes é pouco. Mas pode ser que apanhe aqui boas sugestões musicais. Afinal de contas, se gostas de Yann, deves ter bom gosto🙂

    Quanto ao Yann, se gostas de Les Retrouvailles, experimenta agora ouvir no link que enviei as versões “post-rock” do Western e do Kala. Vais ver que aprecias. Mas também compreendo o outro lado. Já viste como seria ouvir um “Loin des Villes” tal como está no álbum?🙂

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