Depois de esgotado o filão rock grunge da década de 90, com artistas vestidos com charmosas camisas de flanela e botas de lenhador, estamos a chegar a uma nova fase, fruto da época início de século, o “hard rock chique”. Sem ser sequer o meu género preferido, deve ser consequência do boom dos festivais de Verão e ao mesmo tempo da sua decadência musical. Já lá vão os tempos em que os concertos rock eram para os interessados em música, para os fãs incondicionais e para toda uma fauna muito específica. Agora, vamos a festivais (eu, por acaso já não vou há anos, mas dizem-me!) e vemos meninas a passear as suas pochetes, de saltos altos e unhinhas arranjadas. Já só falta instalarem cabeleireiros finos ao lado das barracas das cervejas e bifanas! Sinais do tempo seguramente!
Festivais de hoje em dia
Mas pelos palcos as coisas estão a mudar também. As meninas já não se contentam em ser as vocalistas das bandas, já não se contentam em tocar instrumentos de “menina” e agarram o touro pelos cornos. Agora, fazem bandas só com mulheres e, surpresa ou não, tocam com uma energia de meter inveja a muito rapazinho metaleiro! Aqui deixarei duas bandas que me captaram a atenção pela energia e ao mesmo tempo sensualidade com que conseguem encantar o seu público. Em primeiro lugar, as Plasticines e depois, um projecto já mais maduro, as The Pierces, que até transpiram sedução!
Após duas hipóteses que não havia agarrado de ver Yann Tiersen em Portugal, foi com tremenda alegria que lá consegui os bilhetes para a sua passagem mais recente pelo nosso país. O local: Casa das Artes, Famalicão. O ambiente exterior prometia: muita gente, possivelmente casa cheia, enfim, todos ansiosos por rever os encantos do criador das bandas sonoras de Amelie ou Adeus Lenine.
Yann Tiersen
O primeiro sinal que me fez ficar de pé atrás foram os diversos instrumentos espalhados pelo palco: muitas guitarras e uma bateria imponente nas alturas. “Estranho”, pensei eu, “vai ser um concerto mais rockeiro!”. Para abrir as hostilidades, depois de todos estarem confortavelmente instalados e à esperas das doces melodias, Yann e a sua banda fazem o primeiro aviso, com uma canção (igual a quase todas as outras que se seguiram) num volume tão alto, para uma sala de média dimensão, que até me cairam dois chumbos dos dentes! Meu Deus, parecia o fim do mundo em versão long play. O primeiro tema deve ter durado para aí uns dez minutos, com Yann e toda a banda empenhada em tirarem o máximo de barulho possível dos seus instrumentos. Creio mesmo que cheguei a vislumbrar princípios do Apocalipse em alguns momentos, enquanto procurava os chumbos! Pensei eu até que aquela seria uma versão digna talvez de um grand finale, com os artistas a acabarem o concerto de forma apoteótica. Mas não! Era apenas o início!
As canções foram-se sucedendo, intercaladas com “Obrigados” da parte de Yann e aplausos do público (será que sabiam ao que iam? Só eu fui sem noção do que me esperava?!), mas a verdade é que muito pouco de interessante ou tocante se ouviu durante aqueles 90 minutos. Apenas dois ou três temas escaparam ao inferno decibélico, mas foi muito pouco para um artista que tanto admiro. Num determinado ponto do concerto, ainda se acendeu uma centelha de esperança quando o único elemento feminino da banda se dirigiu para a frente do palco e começou a tocar alguns acordes numa espécie de cavaquinho, sendo esses breves instantes mel para os meus ouvidos, mas a esperança durou pouco tempo, pois após alguns segundos as potentes guitarras e imponente bateria voltaram a arrumar o cavaquinho para o canto (nem sei para que é que continuou a rapariga ali a dedilhar, não se ouvia nada!). E assim foi passando o tempo, com os ouvidos cada vez mais doridos e com Yann a mostrar uma faceta de rockeiro que não é o seu lado mais brilhante, de todo.
Em termos de conclusão, devo dizer que o concerto foi deveras decepcionante. Não que eu quisesse ouvir apenas temas antigos, com as roupagens já conhecidas de todos, mas porque acho que o rock puro e duro não é o estilo que mais favoreça Yann Tiersen ou a música que cria. Toda a distorção, ruído, estrondo desta produção tornam-no apenas um rockeiro banal, igual a tantos outros, quando a sua genialidade reside noutras zonas da música menos exploradas, zonas mais calmas, melancólicas, silenciosas e é isso que eu tanto admiro nele, não no Yann Tiersen de ontem! O que o francês produziu para este espectáculo acabou por ser quase um espécie de de banda sonora de Amélie, tocada pelos Sonic Youth. Talvez tragável num festival de Verão, quase insuportável num ambiente fechado de auditório.
Aqui vos deixo um pequeno exemplo daquela que terá sido uma das músicas menos más de todo o espectáculo. Quase todas as outras nem tiveram direito a violino! (O vídeo não é da minha autoria!)